
Coletivo Malungo fecha 2008 com a primeira exposição individual do fotógrafo Allan Bastos.
Wilson Borba
Repetições surgiu da vontade de trazer um novo rumo para os ares fotográficos do Cariri. Referenciado pelo fotógrafo húngaro, radicado norte americano, André Kertész e suas fotografias de nus, o artista Allan Bastos ousa ultrapassar a barreira dos corpos e propõe um novo olhar sobre a nudez.
André Kertész mostrou corpos distorcidos por espelhos em um de seus trabalhos mais famosos, a série Distorções de 1933. Assim como o fotógrafo americano, Allan utiliza dessas distorções, mas modifica a técnica espacial da foto apenas utilizando sua sensibilidade, suas lentes e a luz.
Na mais simples definição, Repetições exerce o próprio poder da fotografia, o de repetir o real. Onde a câmera olha e reproduz o que vê. Num conceito mais amplo, o artista utiliza-se da anatomia dos corpos para demonstrar essas repetições, “comparado à biologia os corpos desde sua primeira divisão celular, já reproduz certa separação em duas partes iguais. O nosso corpo tem dois lados e quase todos os órgãos do corpo são duplos. Essa é a divisão nervosa do corpo, é onde o seio liga-se diretamente com as pernas, o clitóris, a barriga, etc. Podemos ver isso muito bem no mapa do taoísmo ou até mesmo na acupuntura”, explica Allan. Essa repetição direta é o que permeia o trabalho do artista, a intenção de lembrar que o corpo está devidamente repetido.
Diferente de seus outros trabalhos onde a idéia fotográfica nascia de outras perspectivas, Repetições foi concebida a partir de um projeto antigo do fotógrafo. Com o estudo do conceito de Nú na fotografia, Allan pôde enveredar no seu trabalho. “neste trabalho houve o inverso de minhas fotografias, antes a fotografia surgia e a partir dela eu buscava o conceito, em Repetições primeiro houve o estudo do conceito para somente depois acontecer à parte prática da fotografia”, afirma o artista.
Diferente de outros fotógrafos como o próprio Kertész, Allan já não reconhecia a identidade dos fotografados para que os espectadores possam observar apenas os corpos e fugir da prática de procurar entre as pessoas quem teria sido fotografado provocando, assim, o espectador a encontre-se no ensaio ou qual seria a sua imagem repetida.
Outro detalhe das fotos é a utilização da luz como forma de deformação dos corpos. Nesse sentido, Allan buscou aprimorar as fotografias através da iluminação, criando um desenho luminoso em contraste com a cor da pele do fotografado, ou seja, a foto passa a ter uma linguagem única.
Durante muitos anos Allan Bastos trabalhou com Moda em suas andanças pelo Brasil, especificamente em Recife, mas desta vez o fotógrafo lança um trabalho que pode ser colocado a prova como “anti-moda”. A exposição recorta os corpos, mas de certa forma traz as marcas de roupas em seus recortes. Surge aqui mais uma inovação do fotógrafo para seus trabalhos autorais, a preservação da identidade dos corpos através de cicatrizes, marcas de jeans e lingerie, burlando a prática do nu clássico projetado nas várias exposições em galerias do Brasil e do Mundo.

Convidado pelo Coletivo Malungo para apresentar esta exposição e aceitando a provocação do espaço, Allan devolve um ensaio cheio de suas inquietações. Este trabalho marca a carreira do artista, por ser a primeira exposição individual e por vir de maneira arrojada e substancial para o espectador. A interferência do nu ultrapassa o convencional e avança o conceitual organizando o olhar ousado ou até mesmo um recorte do lado voyeur de todo ser humano, mas o que se mostra nesta exposição fotográfica é a repetição de vários nus em diferentes ângulos desmistificando o pudor e elaborando um panorama artístico do comum, a nudez ou como queiram, preto e pele.
Serviço:
Repetições – Allan Bastos
Local: Coletivo Malungo – Rua Tristão Gonçalves, 567 – Centro – Crato/CE
Lançamento: 03 de dezembro de 2008
Hora: 20h03min